| Valentina Teres...'s profile"Terei toda a aparência ...BlogLists | Help |
REFLEXOS E REFLEXÕES
“- Me converti! – disse a ela. - Como assim se converteu? Vi os olhos se arregalarem e me fixarem como se eu fosse algum animal pré-histórico... - Não esse tipo de conversão, pelo amor de Deus! - Que susto! Quer me matar do coração? Queria, agora, era ter ficado quieta. Mas sabia que estava perdida... - Vai me contar o que quer dizer essa conversão ou terei que extrair à faca? - aquele sorriso assustador acompanhou a frase, como sempre. Eu nunca sabia se aquilo que era dito antes do sorriso era verdade ou mentira. - É mais uma forma de falar... como quando a gente diz que teve uma epifania e, na verdade, teve apenas uma idéia boba... - ela não ia acreditar naquele argumento tolo. Nem eu acreditava. Os olhos castanhos se estreitaram. Mau sinal. - Eu andei pensando e acho que acreditar nas coisas e nas pessoas não deve ser assim tão ruim... A risada que acompanhou a frase me fez ter medo... - Você, acreditar? Hahahahaha... Piada e sem graça, minha querida! Você jamais acreditou, em nada e em ninguém... e, quando caiu na bobagem de acreditar... bem, não precisamos relembrar o episódio, não é? De repente, como uma decisão de Ano Novo, você vem com essa novidade? O que foi que aconteceu? - Nada. - Nada? - Ahã... Eu suava frio, tentando imaginar uma forma de desviar a conversa, mas sabia que seria pior, pois o desvio custaria caro, muito caro. Fiquei ali, fazendo uma cara de sonsa, ou imaginando fazer, esperando o próximo passo, que não demorou: - Quer dizer que agora você acredita? Não vê mais o que existe no fundo do coração das pessoas? Acha que sempre há um bom motivo que justifique as atitudes, por piores que elas sejam? Impressionante! Principalmente depois de tudo que já aconteceu... Aquilo doeu. Eu estava tentando justificar a mim mesma que essa nova atitude era a correta, mas os argumentos que sequer tinham sido expostos em palavras, apenas em lembranças, estavam se tornando irrefutáveis. - Talvez eu seja dura demais com os outros. Todo mundo erra. E pode tentar de novo. Eu, você... Você não gostaria de ter crédito depois que errou? - Se eu tivesse um mínimo de vergonha na cara, não. Claro, isso dependeria do que eu tivesse aprontado. Não é por qualquer bobagem que a gente se torna descrente. Precisa ser algo grande e forte para marcar de tal forma que provoque essa reação. Mas acho que nem precisava estar falando isso, afinal você tem lembrança... ou não? Os olhos castanhos me encararam firmes e límpidos. Tinha lembrança, sim. Mesmo querendo não ter, eu tinha. Droga! Maldita hora que comecei aquela conversa... - Talvez você tenha razão, mas é ruim não crer... a vida fica árida, sem graça. Se olha e não se enxerga. Todos os sentidos ficam embotados... - Ah! Então é por isso que você quer voltar a acreditar: você acha que a vida vai ter o mesmo sabor que teve um dia... aqueles dias... Tenho uma notícia ruim para dar: não vai voltar. Passou. Acabou. C'est fini! Deixe de se prender àquele passado de glória e felicidade e aceite o presente. Esse presente em que você deixou de acreditar em histórias de fadas... - Eu nem devia ter começado essa conversa... - Mas começou. E agora vai ter que terminar. Meus olhos já não conseguiam encarar aqueles olhos acusadores e cheios de razão. Uma razão cruel e dolorida. Mas verdadeira. Completa e definitivamente verdadeira. A vontade era fugir, mas como se foge de nosso próprio reflexo no espelho e de nossa própria consciência?"
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